A indústria da construção civil vive um desafio global: a crescente escassez de mão de obra qualificada. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), há um déficit de aproximadamente 75 mil engenheiros no Brasil para atender a demanda atual do mercado, enquanto o país forma apenas 40 mil por ano. Já nos Estados Unidos, por exemplo, se prevê que 41% da força de trabalho atual irá se aposentar até 2030 sem reposição adequada.
Os dados ilustram a magnitude de um problema que não apenas eleva os custos diretos, mas também acarreta gastos indiretos significativos, como atrasos em cronogramas, a necessidade de retrabalhos e uma inevitável redução na qualidade das entregas. Com esse panorama desafiador, a busca por soluções tecnológicas avançadas, como a Inteligência Artificial (IA) e a metodologia Building Information Modeling (BIM) – especialmente em sua vertente aberta, o OpenBIM – se apresentam como estratégias fundamentais para driblar esse problema e avançar na transformação do setor.
O cerne da questão para integrar a IA na construção reside em como transformar o volume de dados e informações não estruturadas — como imagens rasterizadas, nuvens de pontos, e-mails e desenhos 2D — em dados estruturados, prontos para a tomada de decisões qualificadas. Neste contexto, dados estruturados são sinônimo de BIM, que, por si só, já proporciona benefícios: agilidade em replanejamentos para otimização de recursos, geração de informações confiáveis para decisões estratégicas e capacidade de aprimorar projetos sob a ótica da construtibilidade, e não apenas de sua forma final.
Entretanto, para que o potencial do BIM seja plenamente realizado, ele não pode ser visto como uma ferramenta isolada ou um mero requisito contratual, mas sim deve fazer parte de uma estratégia mais ampla de transformação digital, focada no uso de dados para a tomada de decisão. Neste aspecto, um ponto essencial para alcançar a agilidade que o mercado demanda é a eliminação dos silos de informação. Enquanto processos tradicionais frequentemente envolvem a manipulação de dados em relatórios, um processo BIM centraliza a informação, tornando-a única e automática, prevenindo perdas entre as etapas de planejamento, projeto, obra e operação.
É nesse ponto que a escolha entre um sistema BIM fechado e um OpenBIM se torna um divisor de águas. Embora os sistemas fechados possam parecer mais simples inicialmente, a adoção do OpenBIM é, a longo prazo, uma alternativa mais promissora. Isso não significa usar softwares de código aberto, mas sim utilizar padrões de dados abertos, conferindo às empresas a liberdade de escolher e trocar softwares sem prejuízo ao legado de dados, pois os padrões são perenes e independentes do software que os gerou ou os manipula.
Padrões como IFC (Industry Foundation Classes), que é um formato de arquivo padrão e aberto, usado na indústria da construção e arquitetura para representar as informações de modelos digitais de construções e que permite a troca de dados entre diferentes softwares e sistemas BIM, assim como o uso do BCF (BIM Collaboration Format), arquivo aberto para a comunicação de problemas entre as equipes, e o IDS (Information Delivery Specification), que define os requisitos de entrega de informações em projetos BIM, são essenciais para a interoperabilidade e a governança de dados.
Considerando a aplicação do OpenBIM como pilar central da transformação digital na engenharia e construção, o caminho é estar alinhado aos princípios de gerenciamento de informações da família de normas ISO 19.650, o que evita a criação de silos e permite a integração de dados BIM com outras fontes, como sensores e análises em tempo real, otimizando a gestão e a eficiência dos ativos ao longo do tempo.
Trazendo a Inteligência Artificial para o contexto, a sua sinergia com o OpenBIM é o que verdadeiramente vai desbloquear a eficiência operacional e a inovação. Conectados, será possível estruturar dados, combinar protocolos e usar agentes, colocando diversas soluções de software específicas em uma plataforma integrada.
Esse cenário não apenas demonstra a capacidade de integrar softwares especializados, mas também reforça a ideia de que o BIM, estrategicamente implementado, fomenta um ambiente competitivo e inovador. Sob esse aspecto, as empresas podem desenvolver ofertas e diferenciações baseadas na qualidade e no valor agregado da engenharia, transcendendo a concorrência meramente por preço ou o uso de soluções pasteurizadas e comuns a todos.
A implementação bem-sucedida do OpenBIM e da IA transcende a mera adoção tecnológica: ela exige uma jornada contínua de mudança organizacional e uma reimaginação da operação empresarial, com o engajamento de todos os stakeholders. É um erro estratégico deixar as definições sobre BIM e IA na competência exclusiva dos técnicos. A liderança desempenha um papel fundamental, pois a transformação digital, para liberar todo o seu valor, deve ser encarada como um problema de negócio e uma decisão estratégica, e não apenas técnica.
Ao priorizar a interoperabilidade, a governança de dados e a integração tecnológica, a indústria da construção pode efetivamente superar os desafios atuais, melhorar processos, aumentar a eficiência, reduzir custos e, finalmente, preparar-se de forma robusta para o futuro.
